segunda-feira, 17 de julho de 2017

Série B

Dr.Strangelove, Stanley Kubrick
"Hoje só há razões para lamentar o percurso começado com Hugo Chávez ainda antes de terminar o século XX, apesar de o seu sucesso original ter sido saudado como uma feliz alvorada pelo contingente de extrema-esquerda que se revê nos populismos de ocasião. (...) O que a Venezuela precisa, e depressa, é de se livrar de Maduro e de conseguir um governo respeitado e respeitável — para poder atrair a ajuda internacional que é essencial de forma a garantir alguma viabilidade financeira a um país que está na falência e a um governo que condena os seus cidadãos à fome. (...) Há muito trabalho para fazer que só pode começar quando o Presidente venezuelano cair. Que seja depressa." 

A opinião - ligeira - é do director adjunto do Público, Diogo Queiroz de Andrade, num artigo publicado hoje.  Chama-se a atenção para os termos usados que poderiam integrar um diálogo numa má série norte-americana ou num filme de série B anti-imperialista, a imitar Costa Gavras, sobre o que fazer a um país produtor de petróleo, com um governo fora da influência dos Estados Unidos e muito perto do seu quintal. Junta-se aquele que poderia ser o seu guião (usa-se a letra courier para se assemelhar mais a um guião):  

À volta de uma mesa estão várias homens, de fato e gravata, alguns militares. A luz é artificial, em tons de azulado. Sobre a mesa estão vários dossiers, conseguindo-se ver entre eles as letras "Venez.." Na segunda linha, assessores tiram notas. Há grandes planos dos presentes, paira um ambiente tenso.
- O que a Venezuela precisa é de se livrar de Maduro - diz um homem cinquentão, cabelo branco armado.Nota-se que é um político, membro de uma comissão parlamentar ligada aos serviços de segurança.
- É verdade - concorda um jovem com um fato impecável e uma gravata à moda, talvez assessor de segurança do Senado - Hoje só há razões para lamentar o percurso começado com Hugo Chavez que foi saudado por uma feliz alvorada pelo contingente da extrema-esquerda...
- ... e populista - remata um empresário de cara fechada, nitidamente do sector petrolífero. - É preciso um governo respeitado e respeitável. Estou disposto a pagar para ver isso!
- Sim - corrobora um homem dos FMI - um governo que possa atrair a ajuda financeira a um país na falência e que está a condenar os seus cidadãos à fome.
- Mas - interrompe uma das assessoras - não eram esses cidadãos que estavam à fome antes de Chavez chegar ao poder?
- Quem é esta? - bichana um militar ao seu parceiro do lado.
O homem para quem ela trabalha olha-a de soslaio.
- Há muito trabalho para fazer! - interrompe quem está a presidir à reunião - Muito trabalho que só pode começar quando o presidente venezuelano cair.
- Que seja depressa! - diz o empresário.

20 comentários:

Geringonço disse...

Deixo aqui endereços para o trabalho de uma Jornalista que se dá ao trabalho de ir ao terreno ao contrário de outros "jornalistas" que se limitam a ser papagaios...


Abby Martin in Venezuela - Supermarkets to Black Markets

https://youtu.be/YUYWrPiUeWY


Abby Martin Meets the Venezuelan Opposition

https://youtu.be/ig6yFP8HjVQ


Não me importo nada em ver Maduro e o seu regime serem criticados, contudo, gostava de ver o Diogo Queiroz de Andrade a ser jornalista, coisa que claramente não é, prefere ser comentador pago, é compreensível, dá menos trabalho e os riscos são bem menores...

Al disse...

Nem mais, nem mais. Ja vimos este filme tantas vezes, no ecra e na vida real. Por mim, acho sempre interessante constatar como uma esmagadora maioria dos entrevistados pela comunicacao social estrangeira nas mobilizacoes da oposicao e gente muito burguesota. Ou nao procuram, ou nao encontram, gente das classes populares nessas mobilizaçoes.

Jose disse...

Série C:
Um bardamerda de um camionero, demagogo e chico-esperto, que não se esquece de pagar a um bando de oportunistas e corruptos para o manterem no poleiro.
Fora!

Anónimo disse...

Nada de novo: ler o senhor Diogo Andrade, empregado num jornal pertença de um dos tubarões capitalistas nacionais, defender o governo bolivariano de Maduro é que seria algo inusitado.
Vivemos tempos interessantíssimos em que nos dizem que aquilo que se passa é o contrário daquilo que vemos claramente visto... Os manifestantes da "oposição" made in USA fazem deflagar bombas em direto nos telejornais das 20:00 horas? Não é o que parece ou, pelo menos, é isso que nos garante a voz que acompanha as imagens da pantalha: aquilo é gente pacífica, amante do diálogo e da democracia e que está a ser horrivelmente reprimida pelo "regime". O "regime", a julgar pelas vozes indignadas dos nossos/nossas comentadeiros/comentadeiras, deveria era ordenar às forças de segurança que assistissem, impávidas e serenas, aos ataques a maternidades e ao incêndio de edifícios públicos. Quando atua para conter a violência neofascista, a autoridade do Estado é acusada de "violência"... Onde é que eu já li este guião?... Já me lembro: naquele precioso livrinho do democratíssimo Gene Sharp editado por uma atentíssima casa livreira cá do burgo que comete a proeza de ter uma recheadíssima carteira de autores da esquerda mais "avançada" e do reacionarismo neoimperial mais homicida.
Falemos nós da Líbia ou da Ucrânia, da Síria ou da Venezuela, da RPC ou da Federação Russa, do Irão ou da Coreia do Norte, da direita já sabemos o que esperar. Da novíssima "esquerda", bem vistas as coisas, também.

Anónimo disse...

Herr José perde-se é de amores pelo magnífico Temer que não é nenhum "bardamerda" nem consta que pague a alguém para "o manter no poleiro"... Para Herr José, o evangelho da homicida direita neofascista sul-americana é letra de lei: POBRE É LIXO (mais utilitariamente, se for mulher ainda dobra como puta, se for homem é braço de trabalho descartável e, se se armar em reivindicador, leva um tiro nos cornos e despeja-se na valeta).
Bons, mas mesmo bons, foram os tempos de Carlos Andrés Perez que mandou a polícia assassinar a tiro mil manifestantes que reclamavam da miséria em que os faziam viver. Isso sim era "democracia".
Quanto ao extraordinário "referendo" organizado pela "oposição venezuelana", já nem falo da perfeita lisura em que se desenrolou tal "ato de democracia" ( "urnas" de voto que eram meras caixas de papelão abertas). Tão pouco vou falar da perfeita imparcialidade daqueles e daquelas que faziam o turno às mesas de votação ( gente que, pela forma de vestir e pelo discurso que lhes saía da cloaca, pertencia claramente às trabalhadoras classes populares...). Vou referir apenas um número - sete milhões - que, segundo a quinta coluna venezuelana, foi a grandeza daqueles que se dignaram responder às suas palhaçadas de apeada oligarquia ressabiada. E contraponho-lhe um outro - trinta milhões. É esse o número dos habitantes da Venezuela.

José Lopes disse...

Há seguramente sobre o caso Venezuela muita desinformação, propaganda e tudo o mais. E as coisas também raramente são a preto e branco. Todos sabemos isso.
Mas que o Maduro é um sujeito insuportável, é!
O tipo julga-se o quê? Um iluminado? Pensava que já tínhamos vimos este filme demasiadas vezes.
Pergunto aos que aqui defendem o chamado "chavismo" se gostariam de lá viver, como gente da classe média, que é o que são os leitores e comentadores do "ladrões de bicicletas".

Anónimo disse...

É verdade que há 102 mil venezuelanos registados no estrangeiro e, segundo a direita e a extrema-direita, votaram mais de 600 mil?

Anónimo disse...

É verdade que há um vídeo em que é patente a fraude nos resultados da consulta interna da oposição. Nele, regista-se a conversa entre Filiberto Colmenares, secretário do partido de direita Primero Justicia no estado de Aragua, e José Gregorio Hernández, secretário da MUD nesse mesmo estado.

Colmenares explica ao seu interlocutor como os números finais «foram ajeitados», afirmando que, aos 347 mil obtidos, «foram acrescentados 50 mil votos». A orientação de alterar os resultados em cada estado terá sido dada a nível central, em Caracas, pelo representante da MUD José Luis Cartaya, segundo denunciou Jorge Rodríguez, referido pela AVN"

Anónimo disse...

É verdade que centenas de milhares de pessoas em toda a Venezuela participaram este domingo no ensaio para as eleições da Assembleia Nacional Constituinte na Venezuela, que se realizam no próximo dia 30 de Julho, organizadas pelas autoridades venezuelanas? E que o El País publicou imagens falsas sobre o referido "referendo" utilizando fotografias daquele acontecimento?

El diario español ‘El País’ reconoce haber usado fotografías del simulacro constituyente de Venezuela para mostrarlas como si fuesen del plebiscito opositor.

“El País de España admite que publicó fotos de ensayo Constituyente como si fuesen de consulta interna opositora”, ha informado este lunes el ministro venezolano del Poder Popular para la Comunicación y la Información, Ernesto Villegas, en su cuenta de Twitter.

El rotativo, ha explicado Villegas, ha culpado del incidente a la agencia española de noticias Efe por el “error” cometido con fotos de la multitudinaria participación del pueblo venezolano en el ensayo electoral de la Constituyente convocada por el Consejo Nacional Electoral (CNE), mostradas como si se tratara de la consulta organizada por la oposición ayer domingo.


E que nenhum órgão de comunicação portuguesa referiu o facto?

Anónimo disse...

É verdade isto?

Um deputado da direita venezuelana deixou as «coisas claras» numa universidade de Miami: com o plebiscito de 16 de Julho, a oposição pretende instaurar a «ingovernabilidade» no país, impedir as eleições para a Assembleia Constituinte e promover uma intervenção estrangeira.

«Não podemos deixar que chegue o dia 30 de Julho [data da realização das eleições para a Assembleia Constituinte] sem que, neste país, haja uma paralisação absoluta da vida quotidiana das pessoas», disse Juan Requesens, do partido de direita Primero Justicia, numa alocução proferida quarta-feira, dia 5, na Florida International University, em Miami (EUA), informa a Alba Ciudad.

«No dia 16 de Julho [data do plebiscito marcado pela oposição] faltam 14 dias para a Constituinte, e já não há mais nada a perder», disse, acrescentando: «Vamos dar guerra ao governo!»

Para o deputado de direita, o governo é que está a procurar essa «guerra» e, se a quer, «vai tê-la». «Vamos paralisar a Venezuela!», prosseguiu. Quando alguém na plateia o questionou sobre o que aconteceria no caso de pararem o país e o governo realizar a Constituinte à mesma, Requesens respondeu-lhe: «Se isso acontecer neste país, então vem aí uma valente guerra, meus senhores!».

Entrando em diálogo, o assistente insistiu na ideia de que tem de haver um «plano B», uma «invasão», ao que Requesens explicou: «Mas, para chegar a uma intervenção estrangeira, temos de passar por esta etapa.»

«Se conseguirmos gerar o clima de ingovernabilidade que pretendemos, encurtamos o caminho à "ditadura"», disse.

Anónimo disse...

É verdade que não haviam cadernos eleitorais?
E que já há vídeos em que se vê a mesma pessoa a votar uma série de vezes?

Anónimo disse...

É verdade que todo o material eleitoral usado para o "referendo" foi entretanto incinerado, pelo que se torna impossível aferir com rigor, de forma independente, os números anunciados?

Tal não impediu contudo que a imprensa mundial, tão propensa a exigir rigor e critérios divulgue os números como se fossem reais e credíveis?

Anónimo disse...

Quem é o "bardamerda de um camionero"?
Quem é o "camionero" que alguém aí em estado apoplexico cita?

Pena não ser um "terratenente" como cantado por aí por alguns passarões da nossa praça, digno de todas as mordomias de classe.

Um banqueiro ilustre como Oliveira e Costa. Um sem mácula, como o Salgado. Um intrépido e honesto trabalhador à procura de um lugar também de banqueiro como Durão Barroso.

Ah esta classe tão de classe que se mostra assim em todo o seu esplendor de falta de classe

Anónimo disse...

Os media, com os seus comentadeiros e as suascomentadeiras do turno, têm uma noção de democracia que varia com as coordenadas geográficas: se, na Europa ou nos EUA, a "oposição" apelasse às forças armadas para derrubar o governo democraticamente eleito, isso seria tratado como aquilo que é - um vigoroso convite ao golpe de Estado. Como tal se passa na Venezuela, a coisa é vista como o apelo mais natural e democraticamente legítimo deste mundo.
A Venezuela é, hoje, um "case study" em que aparecem todas as manobras prescritas nos canhenhos do "regime change". Manobras idênticas já fizeram o seu exitoso curso em países tão diversos quanto o Brasil ou a Ucrânia. Os resultados aí estão para toda a gente confirmar...
O que é deveras inquietante é que ninguém compreende que todas essas manobras de guerra híbrida o mais que fazem é colocar - com o seu pavoroso peso de morte e destruição - um obstáculo momentâneo à inexorável soberania dos povos. Quando as contas forem feitas, esses povos não deixarão de apresentar ao chamado Ocidente liberal os custos e os juros dos vexames provocados pelas intervenções neoimperialistas passadas. E todo um capital de ressentimento, também.
Triste, mas não inesperado, é constatar que uma certa "esquerda" nacional invariavelmente se coloca, por defeito ou por excesso, ao lado dos agentes do neoimperialismo globalista. Foi assim no caso da Líbia, como o foi e é nos casos da Venezuela, do Brasil, da Síria ou da Ucrânia. E que significa isso? Significa colocar-se (ingenuamente?) ao lado de esquadrões da morte, de oligarcas, de miseráveis exploradores homicidas de povos de todas as cores e religiões. Uma vergonha.

Anónimo disse...

O Senhor José Lopes resolveu brindar-nos com um novo e preciso instrumento analítico em ciência política: a "insuportabilidade". Diga-me, caríssimo Senhor Lopes, nesse seu insuportabilinómetro que escala atinge o Messias de Massamá? E o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa? E o Temer? E a Frau Merkel?
Quanto a "classes médias", mete o Senhor Lopes os pé pelas mãos ao não entender que Chavéz e Maduro pretenderam criar exatamente uma classe média num país em que, durante dezenas e dezenas de anos, houve apenas dois extremos na escala social: os um por cento dos fabulosamente ricos e os noventa e nove por cento dos pavorosamente pobres (os emigras portugueses que - com honradíssimas e notáveis pouquíssimas exceções - ao terem dois tostões no bolso, já se acham - na Venezuela ou na Papua Nova-Guiné - plenos constituintes dos um por cento, são irrelevantes).
Entretanto, a boa da UE das abastadas classes médias faz pressurosamente o seu papel de raivoso rafeiro dos EUA e ameaça o Governo venezuelano com sanções... Terá a boa da "comunidade internacional" (um divulgadíssimo e modestíssimo eufemismo para a dupla EUA/UE) adquirido um dos seus precisos e muitíssimo eficazes insuportabilinómetros, estimadíssimo Senhor Lopes?

Anónimo disse...

Alguns dados interessantes: a "oposição" venezuelana atualizou o número de votantes no "referendo" de 7 milhões para 7.6 milhões, isto depois de... ter entretanto queimado os boletins de voto; a "oposição" venezuelana, aproveitando o facto de os boletins de voto terem três perguntas, contou cada boletim de voto como três boletins de voto; temos assim que, reduzindo a votação ao seu terço real, obtemos o vigoroso número de 2.6 milhões de votantes numa população de 30 milhões de venezuelanos (e sabe lá Deus quantas vezes votou cada votante...).
É a estes pulhas que a UE (incluído não poucos dos nossos queridos eurodeputados) chama de "democratas"... Nada de novo, pois já vimos o filme uma e outra vez: desde os neonazis ucranianos, aos assassinos do UÇK, dos fundamentalistas líbios aos fundamentalistas sírios, ele há "democratas e mais "democratas"...

Unabomber disse...

Independentemente da propaganda de ambos os lados (oposição e governo), a descida acentuada do preço do petróleo, de mais de 100 USD barril (preço antes de 2009) para menos de 50 USD barril (actualmente), deve de ter tido um forte impacto na economia da Venezuela, nomeadamente na capacidade de importação de bens e no câmbio do Bolívar.
....
O que se passa actualmente com o Bolívar, que é uma moeda "SOBERANA" mas não serve para pagar as importações de que os Venezuelanos necessitam, alerta-nos para o que pode vir a valer a "SOBERANIA" do regresso ao escudinho que muitos (ex.J.Bateira)por aqui defendem.

Anónimo disse...

Um pequeno nojo este post de unabomber
A justuficar o motivo pelos quais os anantes da Alemanha estão dispostos a tudo.
Até a isto

Anónimo disse...

Só cá faltava esta: a inteligentíssima comparação entre moedas soberanas de além e aquém mar e a aguda perceção da danação a que elas condenam, lá e cá, os países que as possuem...
Há quem veja ao elefante a pulga na ponta da tromba, mas do colossal bicho nada enxergue: o problema é a moeda soberana e a baixa constante dos preços do crude e não o boicote e a guerra suja económicos que as maravilhosas "democracias" ocidentais moveram, movem e moverão ao Governo bolivariano, tudo isso de mão dada com uma ressabiada corja fascista apeada do poder. O mesmo se passou no Brasil com Dilma Rousseff e, aí, o grande crime era a corrupção e a falta de "legitimidade" do governo do PT. Agora, está no lugar cimeiro da brasílica nação um cavalheiro impoluto que, de mais a mais, foi eleito por larga margem da grei brasileira...
Adoro estas almas que, não conhecendo nem querendo conhecer a verdadeira raiz e os verdadeiros atores de certas movimentações políticas, confundem faltas com crimes e dão uma de Salomão repartindo as culpas por quem as tem e quem as não tem. O que só vem a significar que os pulhas fascistas só ficam com metade de culpa que é deles na totalidade. O que já é meia absolvição. A total absolvição virá quando tomarem, seja lá por que meios for, o poder. Eles agradecem certamente a estes idiotas úteis e é com eles que constituem o grosso das suas hostes.

Jose disse...

Esta coisa da moeda e outras minudências económicas não interessam nada.

Importante é a vontade e o pensamento do povão e dos seus dirigentes progressistas.

Qual seja a parte desse pensamento que justifica e mantém os índices de criminalidade existentes na Venezuela é que é mais difícil de determinar.
Alguns, seguramente reaccionários, dizem ser a mais autêntica expressão do regime.