sábado, 21 de abril de 2018

Columbine



Cumpriram-se ontem dezanove anos sobre o massacre de Columbine, em que dois adolescentes mataram treze pessoas e feriram mais de vinte, tendo-se depois suicidado. A tragédia que levaria Michael Moore, três anos mais tarde, a realizar o documentário «Bowling for Columbine» e a questionar a facilidade com que se acede a armas nos Estados Unidos. Dezanove anos depois, estes episódios continuam a repetir-se e tornaram-se até mais frequentes. Nada parece ter mudado e estar a mudar. Ou, finalmente, talvez esteja.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Parabéns

O PS faz 45 anos. Parabéns. O Público dedicou-lhe várias páginas ontem. Em primeiro lugar, deu destaque aos acordos em modo bloco central de Costa e de Rio. Em segundo lugar, deu destaque aos secretários-gerais que fizeram carreira lá fora, como Constâncio: da preparação da revisão constitucional de 1989 ao BCE é todo um percurso que muito terá beneficiado o país, sobretudo nestes anos de chumbo do euro, em que a natureza ruinosa das privatizações também ficou clara para todos. Em terceiro lugar, o jornal trazia vários artigos de opinião de responsáveis políticos do PS. Destaco a opinião do eurodeputado Francisco Assis e do muito mais influente Augusto Santos Silva.

Assis confirma que quer ver a social-democracia europeia morrer nos braços de Macron, tal como já aconteceu em França, destacando algo que é verdadeiro: a convergência europeia entre Macron e o governo do PS. E, note-se, ambos já convergiram com Trump, indicando como o enquadramento neoliberal dos abertos e dos fechados é uma fraude intelectual que se destina a esconder as várias faces do imperialismo nos dois lados do Atlântico.

Santos Silva, no fundo ideologicamente alinhado com Assis, confirma que não se aprende nada, recusando “renegar” e “enterrar” “a renovação e a modernização operadas no final do século XX”, ou seja, a “Terceira Via”, até porque a crise da social-democracia não passaria por estes processos, mas antes por vagas “condições objectivas”, incluindo as que estariam associadas aos processos de “financeirização”. Corbyn, implicitamente rejeitado por Santos Silva, é a face da ampla recusa subjectiva desta trajectória, de resto bastante sórdida, como o enriquecimento imobiliário do criminoso de guerra Blair simbolicamente atesta.

A financeirização do capitalismo, ou seja, o aumento do peso dos actores, mercados e agentes financeiros, é um processo já estudado. Creio que se podem dizer duas ou três coisas sobre a responsabilidade dos modernizadores (ou destruidores...) da social-democracia no seu decisivo aprofundamento cá dentro e lá fora.

Em primeiro lugar, lembremos como, no mundo anglo-saxónico, Blair e Clinton aceitaram as reformas neoliberais anteriores e as aprofundaram, contribuindo para instalar um nexo, no capitalismo maduro, entre finança, globalização, construção, desindustrialização e desigualdade, que se revelaria fatal com a crise. Thatcher, com a sua famosa habilidade, declarou que Blair era a sua melhor herança.

Em segundo lugar, este nexo têm uma história nacional que começa na viragem dos anos oitenta para os noventa, de Cavaco a Guterres, indissociável da integração europeia realmente existente, em particular desde Maastricht: das privatizações bancárias à abolição dos controlos de capitais e a outras formas de liberalização financeira, passando pela chamada independência política do Banco de Portugal e depois pela sua redução a uma sucursal de Frankfurt, a financeirização do capitalismo em Portugal é inexplicável sem o europeísmo feliz de que Santos Silva se há-de lembrar bem.

Em terceiro lugar, todos nos lembramos o que foi feito dos governos de Sócrates, num país transformado, também graças a uma moeda forte, num indicador avançado do fenómeno da estagnação, sem instrumentos de política, maciçamente endividado em euros, ou seja, em moeda estrangeira, e logo vítima da grande crise da financeirização.

Em quarto lugar, todos temos a obrigação de saber que o aparente fôlego actual do social-liberalismo nesta periferia assenta em grande parte numa nova fase da financeirização, à boleia da especulação imobiliária nos grandes centros urbanos, em parte alimentada por poupança externa incapaz de encontrar nos seus países de origem oportunidades de investimento suficientemente lucrativas e por um sector bancário ainda por reformar, com maciços apoios públicos nacionais (mais de 17 mil milhões de euros no período 2007 - 2017) e com controlo cada vez mais estrangeiro. A regressão estrutural já diagnosticada continua, igualmente à boleia do turismo, garantindo força acrescida a uma coligação patronal reaccionária, porque dependente de relações laborais precárias e de baixos salários.

Entretanto, as juras recorrentes de fidelidade à integração europeia são a face subjectiva desta realidade objectiva, oleada por decisões de política que responsabilizam e que estiveram, e ainda estão, associadas à perda de soberania. Se depender de Santos Silva, influente ideólogo e dirigente político, resta-nos aguardar, com nervos de aço e programa alternativo de desfinanceirização, os próximos episódios da (auto)destruição da social-democracia. O caminho entre a pasokização e a syrização é estreito, mas existe. É o caminho do socialismo.

Parabéns, uma vez mais.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

O medo é um país distante

De acordo com um recente estudo do Eurobarómetro, a maioria dos europeus (67%) é favorável a políticas de apoio aos refugiados. Sendo certo que se verifica uma significativa discrepância de valores por Estado-membro, os padrões regionais que emergem à escala da UE são evidentes. Nos países do norte e centro europeu, a média de resultados atinge os 80%, seguindo-se os países do sul, com 71% dos seus cidadãos a expressar apoio a políticas favoráveis aos refugiados. Distanciando-se destes dois conjuntos, os países do leste europeu não vão além de uma média de resultados de 44% (com a Hungria e a República Checa a não atingir sequer os 30% de residentes que concordam com medidas de apoio a refugiados).


Curiosamente - e ao contrário do que se poderia supor à partida - existe uma correlação entre estes resultados e a percentagem de residentes estrangeiros em cada país. Ou seja, os Estados-membros menos favoráveis a políticas de apoio a refugiados são também, em regra, os que têm menos residentes estrangeiros, em termos relativos (como mostra o gráfico aqui em cima). É o que sucede, por exemplo, com a Bulgária, a Eslováquia ou a Hungria (com percentagens de residentes estrangeiros inferiores a 2%) ou, no extremo oposto, em países como a Alemanha, o Chipre e a Irlanda, com níveis de simpatia por políticas de apoio aos refugiados superiores a 80%, a par das elevadas taxas de população residente estrangeira (superiores a 10%).

Um segundo inquérito, também do Eurobarómetro e igualmente recente, confirma estas tendências. Questionados sobre como encaram a possibilidade de ter refugiados como amigos, a média de resultados dos Estados-membros situa-se em 46%, um valor bastante inferior aos 67% registados no estudo anterior. Contudo, os padrões regionais, à escala da UE, são praticamente os mesmos: é nos países com um maior peso relativo de residentes estrangeiros que se encara também com total naturalidade a ideia de ter refugiados como amigos (norte e centro da Europa e parte do sul), voltando os países do leste europeu, com menor proporção de estrangeiros residentes, a diferenciar-se pela escassa adesão a essa ideia (menos de 30%, com a Bulgária e a Hungria a atingir valores inferiores a 15%).


Estes dados transmitem uma noção bastante clara: quanto menos um país se relaciona, dentro das suas fronteiras, com os que provém de outras paragens, maior a propensão para deixar instalar o medo do desconhecido. Uma sociedade que acolhe o «outro» e incorpora a diferença protege-se melhor do efeito dos discursos xenófobos e dos simplismos que associam - sem fundamento - a imigração ao desemprego ou a chegada de refugiados à insegurança. É deste medo, tantas vezes incutido e reforçado por uma comunicação social ávida de notícias alarmistas (ou que adere intencionalmente a campanhas de ódio), que se alimentam, sobrevivem e reforçam o seu poder, figuras sinistras e perigosas como Victor Orbán, na Hungria.

Notas soltas ainda a propósito do artigo de Centeno - Parte II

Ainda a propósito do artigo de opinião que Centeno publicou no jornal Público no passado dia 9 de Abril.

Centeno afirma que “[p]odemos tomar como exemplo a experiência da Bélgica que reduziu o rácio da dívida pública de 130,5% em 1995, um valor próximo do registado em Portugal em 2016, para 94,7% em 2005”.

Analisemos, pois, a evolução da dívida pública Belga no período 1995 -2005 e procuremos perceber qual é caminho que Centeno propõe ao país.


Em 10 anos a Bélgica fez decrescer a sua dívida pública em 35,8 pontos percentuais.

No período referido, em termos de média anual, para uma diminuição da dívida pública de 3,6 pontos percentuais, foram necessários saldos primários de 5,2% do PIB e operações de stock (operações que afetam a dívida, mas não o défice, tais como privatizações, diminuição dos depósitos públicos e alteração do perímetro orçamental) de 1,2% do PIB. Ou seja, entre saldos primários e operações de stock a economia Belga utilizou 6,4% PIB para fazer decrescer a dívida em 3,6 pontos percentuais.

Para quem gosta de metáforas familiares (sempre mau caminho, é certo, como tentei explicar aqui) para ilustrar situações macroeconómicas, é assim como estar a pagar a casa ao banco e ver a conta de depósitos à ordem ser mensalmente debitada por 640 euros e o valor da dívida a ser abatido apenas em 360.

E isto aconteceu porquê? Porque, como se sabe, a dinâmica fundamental na evolução da dívida pública resulta da relação (r-g) entre taxa de juro nominal (r) e crescimento nominal (g) e a política orçamental que sustentou esta opção de gestão da dívida pública colocou a economia a crescer em todos os anos do período em consideração, exceto em 2004, abaixo da taxa de juro e isto (efeito bola de neve) acrescentou, anualmente e em média, 2,8 pontos percentuais ao stock de dívida.

Não é isto que Centeno tem em mente ou será?

Aqui chegados, surge a questão da alternativa: uma política orçamental menos restritiva, que tivesse possibilitado mais crescimento, não teria obtido melhores resultados? Para responder a esta pergunta, evitando o terreno sempre controverso da análise contrafactual, não conheço melhor ferramenta do que a História.

Tomemos, os Estados Unidos da América (EUA) como exemplo e vejamos:

De 1954 a 1973, o período de menor instabilidade e maior prosperidade do capitalismo, o orçamento público dos EUA foi, em média, deficitário em cerca de 2%; durante este período a dívida pública em valor cresceu sempre exceto durante um breve período de 6 meses em 1956. No entanto, no período em causa, a dívida pública medida em percentagem do PIB caiu de 70% para 40%. Porquê? Porque a taxa de crescimento da economia (4%, descontada a inflação) foi superior à taxa de crescimento da dívida (1,72%).

De modo mais geral, recordemos agora como, para além das políticas de austeridade, têm os países economicamente mais avançados reduzido o quociente dívida/PIB. O que observamos? – crescimento da economia, default explícito ou restruturação do endividamento público e/ou privado, inflação não antecipada e repressão financeira.

Dir-me-ão que tudo isto é muito bonito mas que o desempenho dos EUA e as políticas alternativas à austeridade foram o resultado de um contexto político e institucional muito particular que acabou algures na primeira metade dos anos 70 do século passado; que vivíamos num regime regulatório internacional onde as taxas de câmbio eram ajustáveis (Bretton Woods), o comércio internacional era conduzido com a preocupação de assegurar balanças de pagamentos equilibradas, o espectro do comunismo sustentava robustas políticas de emprego e de redistribuição de riqueza, os bancos centrais não pretendiam ser independentes e mantinham fortes ligações aos tesouros nacionais, a inflação não estava diabolizada, existiam restrições à circulação de capitais etc., etc.. É verdade. O menu das opções económicas dos governos está hoje fortemente restringido pela integração monetária europeia e pela globalização.

O que concluo, então, relativamente à questão das vantagens para a Bélgica de uma opção por maior crescimento? Reafirmo que não sabemos porque a História não é um laboratório onde a experiência possa ser repetida depois de um parâmetro ser alterado.

O que a meu ver sabemos porque a História ilustra é que, numa economia capitalista, se o problema é a insustentabilidade do endividamento, a viabilidade económica das alternativas à destrutiva austeridade depende em grande medida do quadro político-institucional em que a questão se coloca.

O que a meu ver a História também ilustra é que, numa economia capitalista, se o problema é a insustentabilidade do endividamento, a questão fundamental resultante é a da repartição de perdas entre devedores e credores. E que a viabilidade política das alternativas depende também da avaliação que cada um destes grupos faz dos ganhos e perdas em que potencialmente incorre e do poder de que dispõe para impor as suas preferências na sociedade.

No Reino Unido de 2012, por exemplo, um governo conservador ordenou ao Banco de Inglaterra que apagasse do seu balanço uma parte dos juros que teoricamente lhe tinha pago. Assim, sem mais, a dívida pública ficou mais compostinha em 35 mil milhões de libras sem que isso tivesse significado mais impostos e/ou menos serviços ou investimento públicos. Contextos políticos-institucionais e opções políticas.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Jantar 2018: «em abril esperanças mil»


A 15ª edição do jantar comemorativo do 25 de abril é dedicado este ano ao Serviço Nacional de Saúde, contando com uma mensagem de António Arnaut e João Semedo, intervenções de João Almeida, Maria Augusta Sousa e Sofia Crisóstomo e um momento musical com Manuel Freire e Vítor Sarmento. É já na próxima sexta-feira, dia 20 de abril, a partir das 19h30, na Cantina Velha da Cidade Universitária, em Lisboa. As inscrições podem ser feitas aqui ou aqui.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Continuam a ser bons alunos de maus mestres


“Ganhámos o direito a ser protagonistas na reforma da união monetária”, garantiu o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. É a enésima reinvenção da velha hipótese dos méritos do bom aluno; “bons alunos de maus mestres”, como lembrava o saudoso Medeiros Ferreira. As elites periféricas, que gostam de se imaginar no centro, não vão ter qualquer protagonismo, claro. A não ser que por protagonismo se entenda a reprodução das ideias do centro, o que de resto é visível nas recentes tomadas de posição de Mário Centeno e de António Costa.

O primeiro veio defender que se dê prioridade à União do Mercado de Capitais e à União Bancária, ou seja, e respectivamente, ao reforço da convergência em curso à escala europeia com o pior do modelo anglo-saxónico de capitalismo e ao reforço do controlo externo do sector bancário nacional. O segundo veio defender uma suposta nova forma de condicionalidade política, associada a uma distribuição de migalhas financeiras na lógica liberal dos contratos: “condicionalidade positiva” e não “punitiva”. Enfim, as condições são sempre fixadas por quem tem poder e, nesta lógica, cada vez mais. Se é para isto, mais vale estar quieto e calado.

Entretanto, chamo a atenção para um sinal – “governo e PS perdem força em toda a linha”. Tendo em conta o que se passa e o que provavelmente se vai passar, é caso para perguntar: por quanto tempo escapará a chamada social-democracia desta periferia à tendência europeia, aos efeitos desintegradores da integração?

Notas soltas ainda a propósito do artigo de Centeno - Parte I

Ainda a propósito do artigo de opinião que Mário Centeno publicou no jornal Público no passado dia 9 de Abril, partilho com quem tiver paciência um par de notas mais ou menos avulsas.

Começo com as afirmações de Centeno segundo as quais «[o] comportamento no mercado da dívida é, sem dúvida, o resultado do rigor e da credibilidade da política económica» e que «[s]em a credibilidade da execução orçamental de 2016 e 2017, que só esta solução governativa trouxe ao país, não teríamos a redução de juros observada (...)».

No meu entendimento, afirmações produzidas nestes termos, obscurecendo o papel do Banco Central Europeu (BCE), afastam a discussão do que é substantivamente relevante e criam, pelo menos, três tipos de problemas.

É do domínio público a afirmação de Mario Draghi, proferida em julho de 2012, de que faria tudo o que fosse necessário para impedir a implosão do Euro e o impacto imediato deste anúncio na taxa de juro das dívidas públicas da zona euro. Como é igualmente público que o BCE compra indiretamente à banca privada (proporcionando-lhe, aliás, uma confortável margem de lucro isenta de qualquer risco, uma renda, por isso) dívida pública, em montantes capazes de influenciar o seu preço e por isso a taxa de juro, pelo menos, desde março 2015. Não vejo como estes factos possam ser desconsiderados.



As formulações que secundarizam este aspecto não servem nem a verdade, nem o país. Não serviam quando eram produzidas pela direita, não servem agora.

Por um lado, escamoteiam a responsabilidade do BCE, quando esta instituição se manteve impávida e serena enquanto os juros exigidos pelo sistema financeiro para financiar a dívida pública portuguesa iniciaram em 2010 uma trajetória estratosférica rumo ao pico de mais de 17% atingido em janeiro de 2012. E não me venham com o argumento de que o financiamento dos Estados pelo BCE está proibido pelos tratados. Estava em 2015 e continuou depois de 2015; estava antes da intervenção no mercado da dívida e depois dela. Proibição que em termos de política monetária é uma inovação institucional (nenhum grande banco central no mundo observa esta regra) sem qualquer razão de ser exceto o preconceito contra a ação pública.

Por outro lado, enfraquecem a posição negocial do país na circunstância mais do que provável de o BCE diminuir a intensidade das compras de dívida pública nacional, ou de acabar com elas e, consequentemente, o país ter de enfrentar taxas de juro sabe-se lá quanto mais altas: num cenário destes, como vai um governo, que reivindica exclusivamente para si a capacidade de influenciar “o comportamento do mercado da dívida”, exigir ao BCE que assuma o seu papel de banco central?

Por fim, enquanto não se popularizarem as ideias da centralidade política do BCE no (des)arranjo institucional da zona euro e de que a sua política monetária tem consequências redistributivas relevantes e que, consequentemente, como todas as políticas, tem de estar sob escrutínio democrático, o país permanecerá enredado num simulacro de discussão das suas opções para o futuro. Enquanto não se generalizar o entendimento de que a condicionalidade que o BCE impõe significa que só é banco central dos Estados que obedecem, se obedecem e enquanto obedecem, ou seja, dos que estão disponíveis para as tais ‘reformas’ que mais não são que um cardápio de políticas neoliberais para aplicar sempre independentemente da vontade dos eleitorados nacionais; enquanto isto não acontecer, a meu ver, todas as narrativas que não tornem a chantagem clara, ou que permitam que esta passe sem escrutínio, não servem a discussão democrática.

E, para finalizar, continuo com um pequeno comentário à afirmação “E assim reforçamos o investimento. O investimento público cresceu 25% em 2017”. Qual é o meu problema? O problema é simples. Sendo a afirmação verdadeira, não deixa perceber que, pelas mãos de um governo de esquerda, 2016 e 2017, foram os anos de menor investimento em percentagem do PIB, pelo menos, desde 1995.


E, assim, também não permite perceber que a quadratura do círculo é afinal, como se sabia, impossível: não é possível governar à esquerda e cumprir o Tratado Orçamental. É possível governar melhor que a direita, é certo, contendo, ainda que parcialmente, o ataque aos direitos e rendimentos de quem trabalha, o que está longe de ser coisa pouca, mas não é possível governar à esquerda. A meu ver, este é o problema que o povo progressista vai ter que resolver. Vamos precisar de muito empenho, coragem e clareza na discussão.

Lembram-se do Filipa de Lencastre?

Apesar do título deste post, não faria sentido apresentar o Agrupamento de Escolas Filipa de Lencastre como «o caso» em questão. Isto é, a escola em que os alunos não residentes na sua área de influência recorrem a moradas falsas para aí se poderem inscrever, acabando por «expulsar» os alunos residentes para outras escolas. Na verdade, esta é não só uma prática generalizada em todo o país (sobretudo nas maiores cidades), como a sua persistência muito deve ao laxismo de sucessivos governos, que nunca se incomodaram com a diferença entre a «law in books» e a «law in action».

Não sendo novo, o problema ter-se-á contudo agravado de forma substancial nos últimos anos, sobretudo em resultado da dinâmica de crescente competição entre escolas, a que não é alheia a cultura dos «rankings». De facto, é justamente aqui que encontramos um dos principais incentivos para o acentuar de processos de segregação sócio-educativa, em termos de perfil dos alunos, e de divergência cumulativa entre estabelecimentos de ensino. Deve sublinhar-se, aliás, que ao interesse dos pais para que os filhos frequentem os estabelecimentos de ensino melhor posicionados nos «rankings» (levando-os a indicar a morada de familiares ou amigos para efeitos de matrícula), se junta da parte das escolas a vontade de poder selecionar os melhores alunos num universo mais alargado, assegurando desse modo que mantém ou melhoram a sua posição nas listas ordenadas de escolas. A expensas, evidentemente, do incumprimento da letra da lei (que sendo há muito incumprida foi, ainda por cima, flexibilizada por Nuno Crato) e dos princípios do direito ao acesso, da equidade no acesso e do fomento da igualdade de oportunidades.

São por isso excelentes as notícias que chegam do Ministério da Educação, com a publicação do despacho de matrículas para o próximo ano letivo. Mantendo o princípio da área de influência das escolas - e fazendo-o efetivamente cumprir - passa a exigir-se a demonstração de residência e de agregado familiar do aluno, assegurando-se ainda que, no que diz respeito à área de residência (ou local de trabalho do encarregado de educação), os alunos mais desfavorecidos têm prioridade. Forjar moradas passa portanto a ser mais difícil a partir de agora, graças a uma medida essencial para responder àquele que é, porventura, o desafio menos superado do nosso sistema educativo: impedir que a escola reproduza, e acentue, as desigualdades sociais de partida dos alunos.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Uma cortina de mísseis


"Há o risco de uma escalada contida. Nós não sabemos se houve ataque de armas químicas. Acho que é preciso ser-se muito prudente sobre isso. Já nos venderam a mentira há quinze anos, na cimeira das Lajes, e destruiu-se um país em nome de uma mentira. Foi uma mentira e custou centenas de milhares de mortos. É preciso investigar. Pode ter acontecido? Pode. Assad é capaz disso, as forças que se lhe opõem são absolutamente capazes disso. Pode ter acontecido mas é preciso ter a certeza. Agora, pode haver uma escalada porquê? Porque Theresa May tem o Brexit e precisa de distrair do Brexit. Trump tem o caso da interferência dos russos nas eleições e Macron tem as ruas em revolta, com mobilizações como nunca se viram em França de há muitos anos a esta parte e portanto está a cair nas sondagens. São líderes fracos que precisam ter uma guerra internacional, como tantas vezes aconteceu nos últimos vinte, trinta anos. Se há uma crise interna bombardeia-se algum país, isto é uma regra da política internacional. E portanto é preferível evitar essas precipitações. António Guterres tem razão no que disse hoje, e eu não acrescentaria nada ao que ele disse: Não façam da população síria uma vítima de violência geoestratégica e de política interna de cada um destes países."

Do comentário de Francisco Louçã no Tabu da SIC Notícias, na passada sexta-feira. Poucas horas mais tarde, Trump, May e Macron davam início ao bombardeamento da Síria.

A sombra de Schäuble


À boa maneira como são decididas as coisas que importam na Europa, Angela Merkel e Emmanuel Macron anunciaram há poucas semanas a intenção de apresentarem até junho um novo roteiro para a reforma da zona Euro. Pouco se sabe de concreto sobre em que consistirá, mas conhecemos as inclinações destes dois protagonistas. Do lado de Macron, temos a visão de um grande salto em frente federalista, incluindo um ministro das finanças europeu, um orçamento comunitário significativamente reforçado e harmonização crescente entre estados-membros em matéria fiscal e de protecção social. Já a posição alemã é bastante menos grandiosa e sobretudo mais avessa a tudo o que envolva transferências orçamentais significativas ou mutualização do risco entre estados-membros, enfatizando pelo contrário o reforço dos mecanismos punitivos e de controlo.

Uma vez que no fim de contas é mesmo a Alemanha quem manda mais, parece provável que o roteiro não se afaste muito da visão delineada por Wolfgang Schäuble no chamado non-paper com que se despediu do eurogrupo em finais de 2017. A linha programática aí definida incluía a transformação do Mecanismo de Estabilidade Europeu num Fundo Monetário Europeu com poderes reforçados de supervisão e controlo; a rejeição explícita de quaisquer mecanismos de estabilização macroeconómica à escala da zona Euro, de passos no sentido da mutualização da dívida ou de um mecanismo europeu de garantia dos depósitos bancários; e, o mais preocupante de tudo, uma nova articulação condicional entre fundos estruturais, reformas estruturais e supervisão das políticas orçamentais nacionais, no sentido de condicionar o acesso aos primeiros a uma mais estrita obediência aos ditames do eixo Bruxelas-Berlim.

Se é provável que a visão de Schäuble continue a ser preponderante meses após a sua partida, é porque não é apenas de Schäuble, mas da generalidade das elites dirigentes alemãs. Continuar-se-á sem corrigir as disfuncionalidades do Euro, mas dar-se-á mais alguns passos no sentido do aprofundamento do controlo pós-democrático e do desmantelamento do que resta de solidariedade na Europa. Para um país como Portugal, e em tempos de redução pós-Brexit do orçamento comunitário, isso pode implicar o risco de uma escolha forçada entre abdicar de boa parte dos fundos estruturais e abdicar da margem de autonomia restante em domínios como a política orçamental ou a legislação laboral. Se parece assustador, é porque é mesmo.

(publicado originalmente no Expresso de 14/04/2018)

domingo, 15 de abril de 2018

Vampiros



Via Tiago De Lemos Peixoto.

Ligação para a notícia da Associated Press.

Entretanto, numa pesquisa muito rápida, parece que, a 'notícia' do Expresso se eclipsou do domínio público mas, à hora que escrevo, DN e TSF mantêm a tese segundo a qual os Sírios festejam euforicamente de tão satisfeitos que estão com os bombardeamentos de que são alvo.

O Tiago chama-lhe consentimento manufacturado: estou de acordo, embora propaganda rasca me pareça também muito operativo.

Poupem-me, por favor, a caixa de comentários, que a pergunta é apenas retórica: a Entidade Reguladora para a Comunicação Social terá alguma coisa a dizer?

A trágica farsa repete-se. É revoltante.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O défice, Centeno e o euro


O défice não é uma variável determinada pelo governo. Este apenas gere a despesa pública, enquanto as receitas dependem da evolução do produto, ou seja, da despesa interna - onde se destacam o consumo e o investimento privados - e do saldo externo. De facto, o governo não controla o comportamento das famílias e das empresas, nem as compras do resto do mundo aos nossos exportadores. Nem controla, pelo menos directamente, as importações que absorvem uma parte do rendimento por nós criado.

Portanto, se tem havido uma redução do défice (em % do produto), isso deve-se em alguma medida à boa táctica do PS quanto à reposição dos rendimentos que haviam sido cortados pela política desastrosa da troika. O que se gastou com a reposição foi mais do que recuperado em impostos e na redução de subsídios de desemprego. E também se deve ao crescimento do turismo e a uma bolha do imobiliário, sobretudo produzida pelo afluxo de capitais especulativos e pela retoma do crédito bancário à habitação, bolha que um dia destes vai rebentar e deixar um rasto de crédito mal-parado nos bancos. E obrigará o estado a sanear bancos, fazendo aumentar novamente a dívida pública. Pois, a livre circulação de capitais especulativos e o capitalismo financeirizado é isto. Mas não foi sempre assim, nem tem de ser para sempre assim.

Em resumo, uma contenção do numerador (Défice/PIB) através do adiamento sine die do investimento público e o congelamento das carreiras dos funcionários, algo que acontece desde há muito tempo para favorecer as contas, acompanhada de uma convergência de factores favoráveis ao crescimento do denominador (incluindo a reposição de rendimentos), ofereceu ao governo um défice muito mais baixo do que tinha inicialmente previsto. Sim, o défice pode surpreender um governo, tanto pela negativa (2012) como pela positiva (2017) porque, convém insistir, o governo não controla uma parte do numerador (receita dos impostos) e não controla mesmo a evolução do denominador (produto).

Então, porque é que esta orientação favorável ao défice não prossegue, tanto mais que em Bruxelas tem havido satisfação com Centeno? A resposta é simples. Há outra variável que Bruxelas também quer baixar e, tal como para o défice, também tem ideias erradas quanto à melhor forma de o conseguir. A dívida pública deverá reduzir-se para o nível de 60% do produto rapidamente, como manda o tratado Orçamental. Hoje, Centeno não está em condições institucionais (nem tem convicção) para executar uma táctica de arrastamento quanto a este objectivo, como tem sido feito por outros países. Por esta razão, o governo deseja que o défice do orçamento para 2019 (o défice anual acresce ao montante global da dívida pública) se aproxime de um saldo nulo e, nos anos seguintes, apresente um excedente. Portanto, para cumprir as metas da dívida, o governo não pretende usar as folgas obtidas com o crescimento do produto acima do previsto em 2017, e previsivelmente em 2018, para fazer investimento socialmente útil. O principal objectivo é construir uma imagem de credibilidade junto dos especuladores financeiros através de uma redução acelerada do peso da dívida pública no produto. E isto é possível desde que o produto continue a crescer e o povo mais penalizado com a erosão dos serviços públicos continue a sofrer com resignação, até porque não vê uma alternativa credível.

O governo podia ir mais devagar neste caminho e, se o fizesse, não criaria dificuldades políticas às esquerdas. Mas, aqui, saímos do horizonte da táctica e entramos no da estratégia. Para o socialismo que está no governo, a respeitabilidade financeira é um elemento central do seu programa e a moeda única é o que temos de sofrer para manter o sonho desse socialismo europeu. Até que um dia, quando a esquerda governar todos os países da zona euro, se possa mudar (por unanimidade) a arquitectura dos Tratados num sentido progressista. Sim, é preciso sofrer, caso contrário, como diz Carlos César, irá tudo por água abaixo.

Não será tempo de as esquerdas deixarem de falar a linguagem politicamente correcta, mas teoricamente errada, quando assumem implicitamente que a redução dos défices e, por essa via a redução da dívida, é um caminho respeitável se for percorrido mais devagar do que Centeno deseja? O apoio político ao governo, até ao fim desta legislatura, não deve estar em causa. Mas isso não obriga a fazer um discurso respeitador do quadro conceptual da direita e do ordoliberalismo dos Tratados. É possível fazer uma pedagogia mais clara e insistente do que são os défices e de como são financiados num país com soberania monetária. Com um discurso politicamente incorrecto mas cientificamente correcto, ficaria evidente para muita gente o quão absurdo e socialmente danoso é estarmos no euro e, pelo menos para o BE, tal permitiria tornar mais clara a estratégia política, o que não seria necessariamente mau do ponto de vista eleitoral. Este é um ponto que defendo no vídeo acima.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Seguros para-remuneratórios

Fonte: Associação Portuguesa de Seguradores
O peso dos seguros de saúde têm vindo a subir no total dos prémios de seguros. Segundo os números da Associação Portuguesa de Seguradores, eram 10,6% do total dos prémios emitidos em 2009 e passaram para 13,5% em 2017.

Mas nesse total e a partir de 2016, os prémios dos seguros pagos pelas empresas aos seus trabalhadores ultrapassaram já os prémios pagos individualmente. O número de pessoas cobertas reflecte essa realidade. Em Dezembro de 2014, eram 1,1 milhões de trabalhadores cobertos por seguros e três anos depois, abrangiam já 1,439 milhões de trabalhadores, acima dos seguros individuais que passaram de 851,6 mil pessoas em 2014 para apenas 900 mil em 2017. Qual a razão para esta inversão? Muito provavelmente, o Orçamento de Estado OE).

 Até 2014, os prémios de seguros para os seus trabalhadores eram considerados rendimentos de trabalho e sujeitos a IRS. De qualquer forma, o Código do IRS previa também - e ainda prevê - que parte da despesa dos contribuintes individuais em seguros de saúde contava - e conta ainda - para as deduções fiscais à colecta com despesas de saúde, desde que tivessem "sido comprovadamente tributados como rendimento do sujeito passivo".  

Mas a partir do primeiro dia de 2015, a lei do OE para 2015 introduziu um aditamento ao Código do IRS.

No seu artigo 2-A, passou a ficar explícito o que "não se consideram rendimentos do trabalho dependente". Várias despesas patronais, a maior parte delas que contam como remunerações indirectas: "As prestações efetuadas pelas entidades patronais para regimes obrigatórios de segurança social, ainda que de natureza privada", "as prestações relacionadas exclusivamente com ações de formação profissional dos trabalhadores, quer estas sejam ministradas pela entidade patronal, quer por organismos de direito público ou entidade reconhecida", "as importâncias suportadas pelas entidades patronais com a aquisição de passes sociais a favor dos seus trabalhadores", "as importâncias suportadas pelas entidades patronais com encargos, indemnizações ou compensações, pagos no ano da deslocação, em dinheiro ou em espécie, devidos pela mudança do local de trabalho", os rendimentos recebidos pelos trabalhadores "após a extinção do contrato de trabalho, sempre que o titular seja colocado numa situação equivalente à de reforma".

E - além dessas e claro está - "as importâncias suportadas pelas entidades patronais com seguros de saúde ou doença em benefício dos seus trabalhadores ou respetivos familiares desde que a atribuição dos mesmos tenha carácter geral". Estranhamente, já que, a partir de 2014, graças ao OE 2014, esses prémios de seguros tinham ficado incluídos precisamente nos rendimentos de trabalho a tributar (ver pag 7056 III).

Qual é, pois, a importância desta regra que ainda está em vigor?  

Hoje, em Lisboa


Organizado pelo CES Lisboa e pela Fundação José Saramago, o Encontro «O Futuro das lutas democráticas: Em defesa da democracia brasileira», realiza-se no Capitólio (Parque Mayer), a partir das 18h00. Apareçam.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

O ‘mito’ transformado em ‘papão’

A catadupa de notícias sobre habitação nos jornais e nas televisões reflete bem a importância do tema nos dias de hoje, sobretudo nas cidades de Lisboa e Porto. No entanto, as notícias são frequentemente acompanhadas pelo ‘papão’ do congelamento das rendas, identificado como um dos principais responsáveis pelo estado a que se chegou.

Aqui já se procurou, e por variadas vezes, desfazer o mito do congelamento das rendas, lembrando-se, por um lado, o reduzido peso do mercado de arrendamento, desde sempre preterido pelos poderes públicos em favor da aquisição de casa própria com crédito bancário, e, por outro, a liberalização deste mercado em 1990, bem como as sucessivas alterações ao regime de arrendamento cada vez mais desfavoráveis aos inquilinos.

Contudo, o ‘congelamento das rendas’ continua a ser evocado como uma das principais causas da situação calamitosa da habitação perante a ‘epidemia de despejos’ que se antevê em resultado da ‘triplicação’ das rendas a partir de 2020. Mas esta calamidade é resultado, isso sim, da liberalização do mercado de arrendamento.

O último artigo da Fernanda Câncio revela bem esta contradição. Na mesma frase em que explica, e bem, que “muitos dos despejos são resultantes da não renovação de contratos posteriores a 1990, quando o mercado de arrendamento foi liberalizado”, considera que a solução para a “calamidade que se vive nos centros de Lisboa e Porto” passa por “pensar uma forma de intervir que limite a possibilidade de aumento histérico das rendas sem desmotivar o interesse dos proprietários pelo arrendamento de longa duração.” Mas evitar o aumento histérico das rendas é apenas outro nome para a necessidade de controlar o valor das rendas do mercado liberalizado. E aumento histérico das rendas é precisamente a exigência dos proprietários para o arrendamento de longa duração, já que estes só estão disponíveis para investir no mercado de arrendamento acessível em troca de aliciantes incentivos fiscais. Veja-se o exemplo mais recente da Fidelidade.

Chamar o ‘papão’ do congelamento, neste momento, não contribui em nada para a discussão do problema, que deve incluir a regulação do mercado de arrendamento no atual contexto e a promoção de outras formas, públicas, de provisão da habitação que não passem por mais incentivos fiscais aos que vêm lucrando com a crescente fragilidade dos inquilinos.

E não há medo de continuar no euro?


"Passaram 11 anos desde o começo da última crise e é apenas uma questão de tempo para que tenhamos uma nova crise - como tem sido a regra nas modernas economias capitalistas pelo menos desde 1825. Quando isso acontecer, teremos a margem de manobra monetária e orçamental para a enfrentar, impedindo uma queda do produto por um longo período? O actual ambiente político não inspira grande esperança."

Quem diz isto é um muito respeitado professor de economia convencional com alguma inclinação keynesiana. Um 'liberal' americano. Se está pessimista quanto aos EUA, um país com moeda soberana que paga as importações com a própria moeda, governado por alucinados, é certo, então como será na UE?

A resposta é simples: muito pior que nos EUA.

A zona euro já esgotou a margem de manobra da política monetária e continua aquém do nível anterior à crise, pelo menos na periferia. As ideias ordoliberais impedem o BCE de fazer algo que os EUA e muitos outros países fazem, financiar os défices contracíclicos do orçamento do estado. Por isso, não há política orçamental na zona euro. O Tratado Orçamental não dá margem de manobra para uma política orçamental digna desse nome.

O "projecto europeu" é este: atar os governos de pés e mãos para que as escolhas democráticas, designadamente quanto ao orçamento, não sejam possíveis, ao mesmo tempo que uma política orçamental supra-nacional também é impossível porque não há um povo e um estado europeu que validem politicamente a existência de transferências correntes e de investimento como as que fazemos em Portugal para o interior do país e para as regiões autónomas.

Em suma, se agora há crianças a fazer quimioterapia nos corredores, e saem do bloco operatório para se cruzarem com o caixote do lixo no elevador, ... o que mais irão pedir os especuladores financeiros, na crise que aí vem, para manter a "confiança" na nossa economia?

Os que têm medo de sair do euro deviam ter muito mais medo de continuar no euro.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Centeno já cá não está

Centeno vai amanhã ao Parlamento ser fustigado por causa da situação do Serviço Nacional de Saúde, mas na verdade já cá não está. 
"Podemos querer procurar mais indicadores para o trabalho que tem vindo a ser feito, mas nada é mais positivo para os portugueses do que a colossal redução do pagamento de juros."
Esta frase não foi dita por qualquer porta-voz da Comissão Europeia ou do FMI, mas vem inserta no mais recente artigo de Mário Centeno. O artigo gerou polémica pela alteração do quadro orçamental para 2018 acordado com o Bloco e o PCP, mas não pelo que ele representa.  

Primeiro, a completa ausência de hierarquização de políticas públicas. Preferiu-se a eficácia dos mecanismos de gestão da despesa pública sem atender aos objectivos gerais da vida da sociedade que ficaram adiados. E pior: são vítimas de degradação acumulada ao longo de anos e anos de subfinanciamento, como se vê no SNS. Claro que as finanças públicas devem ser sustentáveis. Mas nunca poderão ser um objectivo por si apenas, à espera das poupanças nos juros. 

Segundo, e mais politicamente, trata-se de um discurso de autonomização de Centeno face ao Governo, quase uma provocação vaidosa, uma subliminar intenção de romper acordos parlamentares e de arranjar - por sua conta e risco - uma agenda eleitoral à pressa. Mote: a consolidação orçamental é tudo (e é como eu a faço), o resto vem por arrasto e logo se vê.

É verdade que Centeno não está sozinho: o Governo tem tentado mostrar que é possível respeitar o Tratado Orçamental - e o enquadramento legal herdado da direita - e ter uma política de esquerda. Nomeadamente no emprego. Mas isso leva-o a ter discursos contraditórios. O Governo já oscila estranhamente entre valorizar a necessidade de um combate à precariedade do emprego e afirmar que o novo emprego é um emprego de qualidade, com 75% de contratos permanentes. Ao abordar en passant aquilo que o BE e o PCP vêm alertando, Centeno dá-lhes razão, embora rematando que nada disso interessa.

Futebol

Para todos vocês, que estão submergidos num noticiário monolítico que acompanha mais a crise do Sporting do que a crise no Brasil ou a crise da moeda única que nos arrasta para o esgoto da opacidade da decisão política (vidé livro de Varoufakis "Comportem-se como adultos") ou a crise da democracia na Europa, aqui deixo uma música e a polémica. Como foi que o jogador Fio Maravilha (João Batista Sales) achou que o Jorge Ben tinha querido abusar da sua figura - quando compôs uma música sobre o golo que ele marcou pelo Flamengo ao Benfica -, a ponto de o forçar a mudar o título da canção para "Filho Maravilha" ? O futebol tem destas coisas...
 
A todos os que gostariam de ser percorridos por um som vibrante que vos levasse às lágrimas.



segunda-feira, 9 de abril de 2018

Endividamento das famílias: até o FMI reconhece o seu impacto perverso!


O FMI acaba de publicar um estudo intitulado «Compreender o impacto macro-financeiro do endividamento das famílias: Uma perspectiva global», da autoria de Adrian Alter, Alan Xiaochen Feng e Nico Valckx que estuda, a partir de dados de 80 economias avançadas e emergentes para o período 1950-2016, a relação entre o endividamento das famílias e o crescimento do PIB e encontra evidência empírica da relação inversa que existe entre a dívida das famílias e crescimento económico.

Esta correlação negativa deve-se a três mecanismos complementares:
i) O endividamento das famílias enfraquece o seu consumo, com implicações significativas sobre a procura agregada quando os choques negativos ocorrem;
ii) O sobreendividamento das famílias aumenta a probabilidade de crises bancárias ocorrerem, o que afecta significativamente a intermediação financeira;
iii) O risco de colapso é sistematicamente negligenciado devido às expectativas superoptimistas dos investidores que sustentam a expansão do endividamento.
Vários factores institucionais, como regime de taxas de câmbios flexíveis (que a zona euro não tem mas necessita para a periferia) ou um maior grau de desenvolvimento e inclusão financeira, podem mitigar o impacto negativo sobre o crescimento. Por outro lado, os países em que o peso dívida pertencente a famílias de baixos rendimentos é mais significativo, indício de sobreendividamento, sofrem uma maior penalização sobre o crescimento do PIB.

Em termos de magnitude, um aumento de um desvio padrão do rácio de endividamento familiar está associado, em média, a uma redução do crescimento do produto nos três anos seguintes de 1.2 pontos percentuais. Aspecto que é mais significativo nas economias avançadas onde existe um maior grau de endividamento das famílias de rendimentos mais baixos.

Ainda acha que não precisamos de provisão pública do direito à habitação e que este despovoamento do centro da cidade para dar lugar a magotes de touristas, alugueres de curta duração, cafés hipster e lojas gourmet é indício de desenvolvimento económico sustentável?

domingo, 8 de abril de 2018

Vive la France insoumise!


Do Financial Times – “uma vitória de Macron ressoará por toda a Europa” – à The Economist – “a reforma dos caminhos-de-ferro é só uma parte de um esforço maior para reformatar o Estado Providência” –, a persistente atenção da imprensa financeira britânica às lutas de classes do outro lado da Mancha ajuda a compreender bem a natureza do programa da grande esperança do europeísmo, incluindo de certa esquerda, a que já perdeu todas as referências e todas as razões de ser.

A história repete-se desde os anos oitenta: trata-se de estilhaçar os grandes focos de organização e resistência laboral para fazer avançar o programa de neoliberalização, de resto inscrito na lógica da integração europeia realmente existente. Os serviços públicos são sacrificados no altar da abertura de novos sectores ao capital, com os resultados negativos que se conhecem.

Uma parte maioritária da opinião pública francesa, que compreende o que está em causa, apesar da barragem mediática, apoia por isso a resistência dos ferroviários franceses e o seu movimento grevista, que pode bem estar a alastrar. Esconjurar o espectro de 1995, o recuo perante grandes mobilizações, está presente nas câmaras de eco dos interesses dominantes.

Entretanto, e como sublinha Jacques Sapir, as reformas de Macron para os caminhos-de-ferro não podem ser compreendidas sem as directivas europeias tendentes a liberalizar este sector, aprofundando a lógica perversa do mercado único. Por isso, tem razão quando diz que este movimento grevista é objectivamente também um movimento contra a União Europeia.

No fundo, as coisas estão ligadas: uma vitória de Macron é uma vitória da UE realmente existente, com impacto negativo fora de França; uma derrota de Macron é uma derrota da lógica neoliberal inerente à integração, com impacto positivo fora de França. É por estas e por muitas outras que as esquerdas que querem contar só podem ser tão anti-liberais quanto eurocépticas.

Como já aqui argumentei, precisamos sempre de uma França insubmissa.

Lançamento no Porto a 10 de abril

«Tento saber onde estamos, como é que aqui chegámos, pode onde andámos. O tempo e o espaço contam. O longo prazo também. As economias não são atópicas nem atemporais. E também não assentam em dois ou três mecanismos gerais e esquemáticos nem são teleguiadas. Têm espessura. Para tudo isto, é útil uma perspetiva aberta, sem grandes predefinições nem limites estreitos, porém com a ambição de compreender quais são as grandes questões, sejam elas as determinações mais estruturais, os contextos que vão mudando ou as decisões que tudo modificam. Uma economia nacional não é uma massa facilmente ajustável a um molde, para ganhar forma. Por isso, deve olhar-se por dentro. Cada país tem um retrato singular. Uma economia é um sistema e é esta condição que, nas suas múltiplas expressões, lhe traça o perfil. (...) Adoto, pois, uma perspetiva que transformo em conselho: na vertigem dos dias, perante a ansiedade predominante e a tentação de chegar a uma explicação rápida e total, é capaz de ser uma boa atitude procurar encontrar espaço para um olhar detido, para juntarmos as várias dimensões que são próprias dos problemas complexos e para procurarmos ver debaixo do que anda à superfície.»

Do capítulo inicial do livro A Economia Portuguesa - Formas de economia política numa periferia persistente (1960-2017), de José Reis. Depois dos lançamentos em Lisboa, Coimbra e Faro, segue-se o Porto, com a apresentação a cargo de Manuel Carvalho (jornalista do Público) e Carlos Pimenta (professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto). A sessão realiza-se na Livraria Almedina Arrábida Shopping, a partir das 18h00. Estão todos convidados, apareçam.

sábado, 7 de abril de 2018

Televisão em directo

Não se deve querer uma televisão elitista. Mas hoje, ouvindo as emissões televisivas, houve momentos em que me senti perdido, levado pelo torrencial de emoções.

Lula faz um discurso emotivo transformando-se numa ideia que se mistura nas ideias de todos, mas fica-se na dúvida se se teria rendido ou assinado a nota de culpa enviada por email pelo presidente. Mais de 800 polícias aguardam o fim do discurso do ex-presidente, mas ainda não se sabe se há conferência de imprensa de Jesus com o presidente. A multidão chora a perda de um líder, enquanto a emoção dos repórteres está à porta da Academia de Alcochete para ver se Coentrão, na sua viatura, vai ser devolvido a Madrid, onde se espera que seja detido por declaração de independência. Notícia de última hora alerta para o facto de ninguém ter pedido desculpa: Lula  promete que irá fazer Moro amochar. Os jogadores aceitam o repto de jogar como Leões, os militantes gritam emocionados que são Lulas. "Vamos tentar perceber" se partirão com a mesma disposição com que chegaram à reunião, "vamos tentar perceber" se os militantes irão conseguir manter a chama agitada. "A morte de um combatente não pára a revolução" no Brasil, a morte de quatro silenciosos numa esplanada em Muenster não pára a sociedade. O terrorista suicidou-se, o terrorista preso vai ser mantido em isolamento para que nada lhe aconteça, e para que não possa contagiar mais ninguém até que daqui a 13 anos possa morrer tranquilo deixando a sociedade em paz como se tivesse suicidado quando foi preso. A polícia pediu para que se capte imagens do local do atentado, a polícia não vai deixar captar imagens de Lula a ser preso. Raul não joga por lesão, Lula sente a tesão dos outros. Os auto-golos fazem explodir a cabeça do presidente que assistia à televisão, o presidente é preso para que não expluda por causa do que a televisão diz que foi um auto-golo. "E nas próximas horas é de esperar que haja confrontos?", pergunta o pivot. Mesmos os jornais mais respeitados estão a aceitar os pedidos da polícia para não darem informação sobre o atentado, enquanto que a rede Globo puxa para titulo que "Lula vai atender à ordem de prisão e provar que está inocente". A televisão está a tentar perceber tudo o que se passa, está marcada uma conferência de imprensa para que se perceba tudo o que passa no relvado, porque o que estava combinado era que o visado se entregasse a seguir à reunião em homenagem da mulher. Os encarnados lideram o campeonato. Os encarnados choram ao pé do sindicato. Os jogos hoje em dia não são jogos fáceis. Se vamos pensar apenas em como se pode parar os encarnados, acabamos por perder o jogo. Acima de tudo temos de estar preocupados connosco. Há quem sonhe com um mundo melhor que depende de cada um, há quem sonhe com o quinto lugar no campeonato. Vamos assistir ao momento em que Lula se entrega, vamos assistir ao momento em que Jesus vai falar, vamos assistir ao momento em que se vê o carro a atropelar a esplanada. Alerta-se os espectadores para as imagens que podem ferir as pessoas mais sensíveis.

Delação e tortura

«Quantos dedos vês na minha mão, Winston?» ▪ «Quatro» ▪ «E se o partido disser que não são quatro, mas sim cinco, quantos dedos vês na minha mão, Winston?» ▪ «Quatro» ▪ «Não. Estás a mentir… Quantos dedos, Winston?» ▪ «Quatro… Cinco… Quatro… Os dedos que quiser… Mas pare a dor por favor» (George Orwell, 1984).

Para lá do tratamento cruel e desumano, as razões jurídicas que levam a recusar a tortura como método de interrogatório (falta de credibilidade de uma «confissão» obtida pelo recurso à violência física e psicológica), não são distintas das que deveriam levar à rejeição da delação premiada como método de obtenção de prova (dada a veracidade questionável de «informação» recolhida junto de criminosos confessos que resolvem colaborar, tendo em vista «colher benefícios de redução de pena»). No entanto, é significativa a distância que vai entre o repúdio do primeiro «método» e a forma como se admite, em alguns quadros jurídicos, o segundo.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Memória (XXVI)


«Eduardo Catroga foi o homem do PSD que despachou a privatização da EDP. Como prémio por agir em nome do Estado para vender a lucrativa empresa pública, ganhou um milionário cargo na nova EDP, já privatizada. Nunca foi investigado por corrupção ou tráfico de influências, nunca teve a PJ a vasculhar o seu gabinete.
Hoje, termina o seu mandato como chairman da EDP. Tentando transmitir uma mensagem de humildade, diz que poderia viver sem salários e pensões. Só por si, a frase já seria suficientemente insultuosa, pois Catroga terá ganhado cerca de 3 milhões de euros à frente da EDP nos últimos anos, que acumulou com a pensão mensal de 9600 euros que ainda aufere, pelas funções que exerceu como técnico e governante.
Mas o insulto é ainda maior. Catroga sai do cargo de chairman, mas mantém-se como consultor da China Three Gorges, a maior accionista da EDP, que comprou a posição maioritária na antiga empresa pública através, precisamente, da negociação liderada por Catroga.
Por outras palavras, Catroga mantém o prémio por ter vendido uma das empresas estrategicamente mais importantes e lucrativas do país. O caso da privatização da EDP é apenas um dos exemplos das monstruosas negociatas levadas a cabo durante o Governo de PSD e CDS-PP, que privatizaram tudo o que podiam, assegurando cargos milionários a pessoas dos partidos. Ironicamente, PSD e CDS-PP estão constantemente a acusar os partidos de esquerda de governarem para as "clientelas"».

Uma página numa rede social (facebook)

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Adeus Lula


O que está em jogo é também a capacidade inesgotável por parte das elites do país de fingir a indignação a fim de criar mais espaço para restabelecer os seus interesses e manter os seus privilégios intactos. Por isso, o problema do Brasil não é este conflito particular, antes o fracasso em lidar com os conflitos reais. Estes incluem o processo incompleto de abolição da escravatura, a desigualdade económica abissal e o apartheid racial e social que são debates inexistentes. Os governos de Lula e Dilma optaram por acomodar-se a estas estruturas históricas em vez de as enfrentar decididamente.

Eliane, Brum, jornalista brasileira

O juiz, ou Super Moro como é chamado pelos brasileiros, reacendeu as chamas de uma antiga tradição brasileira: o linchamento. Em vez de justiça, sempre mais lenta do que os pregadores do ódio gostariam, ele deu às pessoas que clamavam por sangue o que elas queriam. Mesmo sendo um linchamento moral, a imagem simbólica produziu resultados muito concretos, como as manifestações mostram.

Eliane Brum

Este não é apenas um momento de brutalidade extrema no Brasil. É também um momento de potências emergindo. E começos de alianças até então impensáveis. É preciso perceber onde estão as possibilidades - e fazer frente àqueles que, diante da democracia corrompida do país, avançam sobre os corpos humanos.

Eliane Brum

O perigo real aqui é o retorno duradouro a um estado oligárquico como o do Brasil no século XIX, no qual as rendas de uma economia de exportação relativamente estagnada eram distribuídas entre umas poucas famílias poderosas, enquanto a grande maioria era deixada de fora. Na versão contemporânea, em vez da escravidão, uma massa de desempregados sobrevive nas favelas à mercê de um estado policial repressivo. O patrocínio e o uso de empresas estatais para ganho pessoal aumentariam, e a justiça e os media teriam desempenhado o seu papel permitindo que organizações ilegais penetrassem no estado. O brasil tornar-se-ia mais um narco-estado no qual os cartéis da droga teriam um papel menor do que na Colômbia ou no México, mas onde uma extorsão similar seria obscurecida por uma fachada de legalidade sob as instituições oficiais. Seria a mexicanização do Brasil e a entronização do que tem sido descrito como a "ditadura perfeita".

Matías Vernengo, economista argentino

Moda Nancy Catalunya

Nos dias em que, no Brasil, se assiste a mais uma manifestação de judicialização da política - ou por palavras mais claras, a um acto de orientação política por parte de elementos da estrutura judicial de um Estado que evolui em transição pacífica - gostaria de dar imagem de outro caso semelhante mais próximo de nós.

Se dúvidas havia sobre uma sintonia entre os analistas políticos da TVE, a direita no Parlamento da Catalunha e os membros do Governo Rajoy, as imagens mostram-na de forma transparente. A moda Nancy Reagan continua a reinar, agora já reformatada. E de forma cada vez mais exaltada e acirrada. 

Estranha e paulatinamente os elementos antidemocráticos, alçados em nome da defesa da Democracia, vão escorregando tão bem por entre nós, com apoio e cobertura de uma verdadeira internacional antidemocrática, com sede aparente em Bruxelas, cara de uma centralização europeia, comandada sabe lá Deus por quem... e que se vai transformando num simulacro de soberania popular em que apenas se vota o que alguém decide o que é permitido votar. E com o poder repressivo do Estado, desde aos serviços secretos até à Justiça.

Bem sei que não se compara (porque não?), mas dá-me sempre calafrios estes estados de letargia colectiva, de apatia de animais entorpecidos, de cabeça baixa durante anos e anos, porque me lembram como foi que - nas grandes democracias ocidentais - se foi aceitando que os nazis viessem buscar pessoas a casa. Ou a polícia política em Portugal e Espanha, logo no pós-segunda guerra mundial, aceites como bons polícias contra o advento do comunismo.

Não foi assim há tanto tempo.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

As duas pobrezas

Toda a gente sabe dizer mal da pobreza, da precariedade e da desigualdade.

Todos valorizam o voluntariado e gostam de dar uns sacos de plástico aos pobres, de ora em quando, ou à noite a quem dorme ao relento. Sabe tão bem: parece que somos úteis.

Até o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, há bem pouco tempo fez um discurso muito repetido na comunicação social. "Eu tenho vergonha”, afirmou ele. Até disse algo tão radical como: "É urgente juntar ao crescimento e ao emprego uma estratégia autónoma nacional de combate à pobreza, para a sua erradicação". 

Ora, esta ideia da autonomia da pobreza é uma ideia errada porque dissocia os diferentes fenómenos da mesma causa - a eminente causa laboral. Como se os pobres medrassem nas cidades por autogeração, espontânea e até às vezes voluntária. Este pensamento tem se traduzido numa estratégia de combate autónomo aos pobres que tem, aliás, sido seguida - de forma mais ou menos acentuada - pelas políticas públicas, atacando apenas a juzante do problema.

Por isso, não é de estranhar que Portugal insista em ter - há décadas!! - mais de um quinto da população na pobreza. E tem ainda mais se não fosse o Estado a ajudar.

Mas quando alguém insiste em ligar o problema da precariedade laboral ao da pobreza, - fazendo eco de muitos estudos académico nesse sentido - aí o assunto é rapidamente empurrado para o quarto escuro da discussão política, de preferência acusando quem o suscita de ser comunista, radical de esquerda ou sindicalista da CGTP, o que é uma táctica muito Estado Novo de "resolver" o problema, mas tão actual entre nós.

Por isso, não é de estranhar que, ainda hoje o deputado do CDS António Carlos Monteiro, na audição do ministro do Trabalho sobre as alterações laborais em discussão, clamou que "a reforma laboral tem sido um sucesso". E lá voltou a repetir que foi essa reforma a suscitar o crescimento do emprego que hoje se sente. Ou seja, a reforma laboral de 2012 que aprovou uma longa lista de medidas, reduziu fortemente as retribuições salariais, aumentou o tempo de trabalho sem retribuição, acabou com o descanso compensatório por trabalho extraordinário, impediu a subida do SMN, asfixiou a negociação colectiva, abriu a porta à individualização da negociação, empresa a empresa, embarateceu fortemente o despedimento e ainda - pasme-se! - reduziu substancialmente os apoios aos desempregados... 

Por isso, como alertou o próprio ministro,"é deveras impressionante que os beneficiários do subsídio social de desemprego inicial sejam pessoas que terminaram um contratos a termo sem direito a subsídio de desemprego e com condições de recursos que os habilitam a subsidio social de desemprego... "

Apresentação em Faro a 6 de abril

«Fazia falta um livro como este. Um livro que analisasse a economia portuguesa de um ponto de vista diferente do pensamento dominante na União Europeia. Um livro que respondesse e desmontasse várias das premissas a que esse pensamento dominante tem recorrido para sustentar a sua narrativa da crise. Um livro que nos dissesse que não foram os portugueses os culpados pelo pedido de ajuda internacional em 2011. Um livro que nos mostrasse que esta foi uma crise diferente, que a estrutura produtiva nacional não saiu fortalecida dela e que não nos devemos iludir com as bases em que assenta o crescimento de 2,6% em 2017. Enfim, fazia falta um livro como este, que contivesse uma análise global (económica, social...) dos efeitos da crise e que não se limitasse a olhar apenas para os resultados financeiros do programa de ajustamento. Este é um livro corajoso e imprescindível, para quem quer dispor de outro olhar sobre o que efetivamente aconteceu em Portugal desde o início do séc. XX - e deseja conhecer a resposta à pergunta crucial que José Reis coloca: para que serve um país pobre?»

Do prefácio de Nicolau Santos ao recente livro de José Reis, A Economia Portuguesa - Formas de economia política numa periferia persistente (1960-2017), que será apresentado em Faro na próxima sexta-feira, 6 de abril, por Adriano Pimpão, professor e ex-Reitor da Universidade do Algarve, e Hugo Pinto, investigador do CES (Coimbra) e professor na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. A sessão de apresentação realiza-se na FNAC de Faro, a partir das 21h30. Estão todos convidados, apareçam.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Passar à frente

Do filme "Heat", de Michael Mann (1995)
Este não é um post, mas uma adenda ao artigo do João Rodrigues de hoje. É apenas uma chamada de atenção para uma questão altamente pertinente colocada pelo presidente do IPO de Lisboa, num bom artigo da Alexandra Campos, no Público de hoje.

Francisco Ramos alerta - mais uma vez! A anterior foi há quase dois anos! - para a urgência de regras de tratamento dos doentes com cancro que vêm do sector privado - "despejados" do sector privado - quando se acabou o dinheiro dos pacientes ou quando as companhias seguradoras deixam de pagar os cuidados dos pacientes com seguros privados.  

O problema não é tratá-los. Mas é o facto de, como esses doentes em muitos casos já iniciaram tratamentos, não se lhes pode interromper esses cuidados e, por isso, havendo limitações orçamentais - impostas por uma filosofia económica estúpida e criminosa - têm de passar à frente dos doentes do Serviço Nacional de Saúde...

Este caso é exemplar das consequências da ausência de uma visão integrada dos problemas e do que dá a inércia de empurrar com a barriga os problemas conhecidos. Tudo para não fazer perigar desconhecidos equilíbrios. Neste caso, trata-se da separação de águas entre o sector privado e o público que importa ser feita e que está em discussão pública

Francisco Ramos foi secretário de Estado da Saúde em diversos governos socialistas, de ministros como Maria de Belém Roseira, Correia de Campos, Ana Jorge. Talvez fosse pertinente perguntar-lhe o que impediu, nessa altura, de traçar esta separação das águas. O Partido Socialista tem de ter um pensamento próprio e entender que tem de fazer opções claras e transparentes, coerentes e visionárias. Porque não fazer opções, é uma opção que favorece alguns interesses, mas que fará pagar bem caro aos portugueses, mesmo com a própria vida. E em última instância ao próprio PS, a um PS que faça a diferença nesta sociedade, e à esquerda nacional.

Não somos todos Centeno


O Ministro da Saúde afiançou no fim-de-semana passada ao Expresso que “somos todos Centeno”. Por sua vez, Ana Catarina Mendes garantiu ontem no Público que “gostaria de ver Centeno num próximo governo do PS”. Diria antes que num próximo governo é necessário superar as políticas de Centeno, da banca ao investimento público, o que exige alterações bem profundas, incluindo na política externa nacional. Para justificar esta posição, deixo aqui o artigo que escrevi, também sobre Centeno, no Le Monde diplomatique – edição portuguesa:

Por quem o sininho dobra no Eurogrupo?

Yanis Varoufakis, ministro das Finanças grego durante o primeiro semestre de 2015, escreveu um livro recentemente editado entre nós com o título Comportem-se como Adultos [i]. Creio que pode ser útil tê-lo presente numa reflexão sobre a chamada eleição de Mário Centeno para a chamada presidência do chamado Eurogrupo. É, como já escrevemos em recensão à edição inglesa original, simultaneamente um livro de memórias, de economia e um thriller político, destinado a justificar o seu papel e a sua derrota, ou seja, a capitulação do governo liderado pelo Syriza perante um «golpe de Estado financeiro» e a eventual cooptação europeia da esquerda dita radical  [ii]. Afinal de contas, o governo grego passou a comportar-se como um adulto, usando os reveladores termos de Christine Lagarde, directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), mantendo a linha política anterior – da austeridade às privatizações ou à redução de direitos laborais –, em nome da promessa de uma nova reestruturação da sua dívida pública nos tempos e nos termos dos credores.

É verdade que o livro torna evidentes as contradições do próprio Varoufakis, da sua crença num europeísmo comum capaz de gerar uma solução mutuamente vantajosa até à evidente falta de preparação técnica e política de um plano B, assumido como eventualmente necessário e que teria de contemplar a saída do euro, passando pelo seu desprezo elitista pela militância e vida partidárias ou pela sua incapacidade de reconhecer erros próprios. Mas também é verdade que nos dá um vislumbre inédito do funcionamento, em grande medida secreto e em toda a medida pós-democrático, da mais poderosa máquina de liberalização jamais inventada – a União Europeia (UE), em geral, e a zona euro, em particular – e da consequente arrogância da elite, sem freios e contrapesos significativos, que maneja essa máquina.

Da informalidade e da sua utilidade

Vale a pena reter por agora a descrição que Varoufakis faz do chamado Eurogrupo: «O Eurogrupo é um animal interessante. Não tem existência legal em nenhum tratado da UE e, não obstante, é o organismo que toma as decisões mais vitais da Europa. Ao mesmo tempo, a maioria dos europeus, incluindo a maioria dos políticos, não sabe quase nada acerca dele. Reúne-se à volta de uma enorme mesa retangular. Os Ministros das Finanças [dos países da zona euro] sentam-se dos dois lados compridos, cada um acompanhado por um único assessor, que também os representa no Grupo de Trabalho do Eurogrupo. Contudo, o verdadeiro poder encontra-se de uma ponta e outra da mesa» [iii].

De facto, neste órgão reconhecidamente «informal», segundo a própria informação oficial [iv], uma parte do poder, a fazer fé em Varoufakis, residia não no presidente, mas sim no presidente do Grupo de Trabalho. Mas era na outra ponta da mesa que se concentrava o maior poder, dado que aí se sentavam os dois comissários das áreas económicas e financeiras, os representantes do Banco Central Europeu (BCE), sem esquecer que no «mesmo canto da mesa que [Mario] Draghi, mas do lado mais comprido e em ângulo recto com ele», se sentava o ministro das Finanças alemão [v]. Ou seja, era aí que estava o representante da variante alemã do neoliberalismo, o ordoliberalismo, bem entranhado desde há décadas nas duas alas – União Democrata-Cristã (CDU) e Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) – do «partido» exportador da maior economia da área e, por maioria de razão, nas instituições europeias.

A informalidade do Eurogrupo tem servido bem as grandes potências, em especial a Alemanha. A formalidade das restantes instituições europeias serve o pesado acervo de regras políticas que de forma explícita se destina a construir mercados mais amplos e que operem em cada vez mais esferas da vida, beneficiando os «povos dos mercados», os ganhadores da integração. E isto à custa da soberania democrática de Estados nacionais desprovidos de instrumentos decentes de política, o que é pior para as periferias, que deles mais necessitam, e dentro destas para os «povos dos Estados», a grande massa de perdedores [vi]. No fundo, a complexidade e opacidade institucional da União Europeia e da zona euro estão ao serviço de duas lógicas que não se articulam espontaneamente, mas que requerem instituições, formais e informais, para esse efeito: a da geopolítica, associada ao poder das grandes potências, e a de classe, associada à dominação do capital financeiro.

Leituras


«A crise global diplomática, após o envenenamento de um ex-espião russo, é demasiado forçada ou exagerada para poder ser tomada como genuína, pelo menos, assim, acriticamente, como estamos a assistir. É que já vimos este filme: antes de nos solidarizarmos com o Reino Unido, independentemente de todas as alianças, convinha que os britânicos apresentassem provas mais consistentes do que aquelas que apresentaram quando nos impingiram a suposta existência de armas químicas no Iraque. (...) Visto desapaixonadamente, o crime aproveita muito mais a uma Grã-Bretanha em pleno Brexit e a uns EUA emaranhados na nuvem de suspeitas sobre a alegada mão russa por detrás do arbusto, na eleição de Donald Trump, do que aos russos, cujo único móbil seria a vingança. (...) É por isso que, antes de "engravidarmos" pelos ouvidos, com a exageradíssima tese de que um envenenamento de um indivíduo é o "primeiro ataque com armas químicas em solo europeu depois da II Guerra Mundial" (uuhhh!...), convinha estarmos seguros dos passos a dar».

Filipe Luís, Orgulhosamente sós

«Terão sido as mesmas fontes - igualmente credíveis - em que se baseiam agora May e Johnson que terão convencido Blair da irrefutável posse de armas de destruição massiva pelo Iraque. São conhecidas as consequências desastrosas dessas crenças sem a devida certificação. (...) Encontramo-nos numa estrada perigosa. Assistimos a algo que se assemelha ao início de uma guerra. As guerras, leia-se os confrontos militares generalizados, são sempre precedidos por uma escalada que passa pela subida de tom na retórica, a demonização do oponente, o reforço dos dispositivos militares e a conquista da opinião pública para apoiar ações mais assertivas contra o oponente. Depois é necessário criar um acontecimento, um pretexto que não tem necessariamente de ser causado pelo oponente e que é normalmente provocado por quem pensa que vai beneficiar com o resultado da guerra».

Carlos Branco, O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem

«Este exercício de fechar os olhos e abanar o rabo conforme as orientações dominantes é visível todos os dias nos mais pequenos detalhes. Quando lemos uma notícia com um título em que se garante que o “PCP condena 'massacre' na fronteira de Gaza com Israel”, estamos em pleno linguajar que absolve tudo. Massacre entre aspas pretende colocar na cabeça do leitor que não houve massacre. Quer transformar um fuzilamento de manifestantes desarmados, que fez 16 mortos e mais de 1400 feridos, num simples conflito em que as duas partes estavam na mesma situação. A segunda operação, que nos permite achar normal a ocupação, prisão, tortura e morte de milhares de palestinianos ao longo dos anos, é a mesma que permitiu aos nazis massacrarem durante anos os judeus, com o silêncio cúmplice dos governos ocidentais. Baseia-se num trabalho de sapa que faz dos outros sub-humanos. Faz deles gente privada de direitos cuja vida tem um valor muito menor que o da nossa».

Nuno Ramos de Almeida, Os cães de guarda